19 novembro 2012
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PARTE A

Existe uma certa cumplicidade implícita na palavra amizade. Um estreitamento de laços que se dá no coração e invade a alma. Um certo momento de ternura quando o universo caminha para o total desalinho. A cumplicidade construída no sentir é reconhecível porque não há perda. Existe apenas ganho. A amizade aguça em determinados momentos sentimentos que jamais esperamos ter. Por vezes, o impetuoso sentimento de possessão bate, os ciúmes transbordam. Acontece, é fato. Eu sou seu melhor amigo. Quem é esta pessoa que anda roubando meu lugar? É difícil compreender que o círculo de amizade se alarga, mas é fácil entender que existem poucos em quem podemos confiar.

Voltemos a cumplicidade. Existes mensagens trocadas, gestos guturais, expressões faciais, comportamentos perenes ou impensados, um franzir de testas, um afago. Não precisamos muito das palavras quando temos amigos de verdade. Elas se perdem e dão lugar ao óbvio. Mentes e corações sintonizados na mesma direção. Quem tem um amigo acha uma joia rara. Quem tem um amigo acha a mais singela forma de amor, àquele que não guarda rancor.

Feliz aquele que reconhece suas falhas. Porém, mais feliz ainda é aquele que estende sua mão ao que cai e o ajuda a se erguer. Feliz é aquele que não julga seu próximo. Antes, ao contrário, partilha com ele das mesmas fraquezas. O certo é que na vida existem muito dedos apontados e poucos ombros para colher nossas lágrimas. Individualismo? Reflexo da sociedade? Fim dos tempos? Não! Existem várias subterfúgios para imputarmos nossos tropeços, mas pouca coragem para assumir que andamos e andamos sem rumo. Queremos distância das relações porque tememos o contato. Devemos passar por esta vida inabaláveis, fortes como a rocha. Qualquer simples sinal de fraqueza poderá ser usado contra a minha pessoa. Esquecemos que os melhores amigos são os que confrontam. Hoje em dia, poucos querem ser questionados.

Subi no mais alto monte para sentir o cheiro de vida e voltei com o espírito cheio de paz. Corri pelos vales e senti a liberdade do vento convidando meu corpo a bailar por suas correntes. Desatei as amarras que prendiam minha visão e vi o mundo que deveríamos viver e não vivemos e foi neste momento que caí em mim e vi você ao meu lado, porque não existe vida sem amigos, não existe possibilidade de existência sem que tudo que temos ao nosso dispor seja compartilhado.

Amigos são presentes de Deus que, aos poucos, adotamos como irmãos. A identificação é tão notória que até nossos traços se confundem. Uma fusão inesperada, mas que revela a absorção do outro por completo em nosso viver. Então, a alma cataliza esta mutação e o sangue que corre nas veias se torna obsoleto, porque pra ser irmão, não é necessário sangue, é necessário coração.

O outro lado – PARTE B

Já me acostumei a passar tempos em que a sequidão de abraços foi a tônica de minha vida, e não reclamava da falta deles, sabia que em algum momento eles voltariam, das formas mais simples e surpreendentes possíveis. Não sentia falta da presença, ao contrário, convivi o máximo com a ausência para saber de forma real que ela é um viver em nós. Talvez, o objetivo maior do homem, objeto de estudo e análise psicanalítica, não é conviver em sociedade, mas sim, conviver consigo mesmo.

Há uma guerra travada em nossos corpos, a incontrolável e substancial presença do outro, e a vaga existência de nós mesmos. A inconstância de nossos atos é notória, até a nós mesmos… Invariavelmente, passamos a nos achar insuportáveis, mas não existe vida com o outro, sem estarmos em paz com nossas almas. As vontades que temos sempre suplantam a nossa carência, e a vida passa a ser mais uma busca insensata pelas conquistas do que um caminho de descobertas. Deixamos coisas para trás, esquecemos pessoas, esquecemos conceitos, perdemos em amor e ganhamos em soberba…

A razão da reclusão não é a falta, nem um purgatório. Para além disto, ela se impõe como a preparação mais dolorosa para a convivência em sociedade. Às vezes, nos sentimos como páginas em branco, carentes e tão vazias de vida e encanto, mas esquecemos de observar, que mesmo na branquidão daquela folha, ali serão depositados sentimentos e até mesmo uma vida, esquecemos da necessidade daquele espaço vago… A ausência deve ser um constante viver em nós, ela delineará nossos passos falsos, contragolpeará com volúpia a saudade, e nos erguerá rumo a realização de nossos sonhos.

Só a ausência será capaz de nos preparar para os próximos estágios da vida. Porque é na ausência, como diz François La Rochefoucauld, que as pequenas paixões são apagadas, enquanto as grandes são fortalecidas. Porque o amigo ama em todo o tempo; e para a angústia nasce o irmão.

“Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.” – Eclesiastes 4:9-12

Por Josias Pereira

 

Lindo né? O Josi é um grande amigo meu, nossa amizade nasceu de caronas para casa depois da aula. Ele também é jornalista e escritor de contos e divagações sobre a vida no seu tempo livre .  Escreveu esse texto exclusivamente para o Leve & Solta . Muito obrigada por sua participação e a sua amizade sempre. 

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Existe uma certa cumplicidade implícita na palavra amizade. Um estreitamento de laços que se dá no coração e invade a alma. Um certo momento de ternura quando o universo caminha para o total desalinho. A cumplicidade construída no sentir é reconhecível porque não há perda. Existe apenas ganho. A amizade aguça em determinados momentos sentimentos que jamais esperamos ter. Por vezes, o impetuoso sentimento de possessão bate, os ciúmes transbordam. Acontece, é fato. Eu sou seu melhor amigo. Quem é esta pessoa que anda roubando meu lugar? É difícil compreender que o círculo de amizade se alarga, mas é fácil entender que existem poucos em quem podemos confiar.

Voltemos a cumplicidade. Existes mensagens trocadas, gestos guturais, expressões faciais, comportamentos perenes ou impensados, um franzir de testas, um afago. Não precisamos muito das palavras quando temos amigos de verdade. Elas se perdem e dão lugar ao óbvio. Mentes e corações sintonizados na mesma direção. Quem tem um amigo acha uma joia rara. Quem tem um amigo acha a mais singela forma de amor, àquele que não guarda rancor.

Feliz aquele que reconhece suas falhas. Porém, mais feliz ainda é aquele que estende sua mão ao que cai e o ajuda a se erguer. Feliz é aquele que não julga seu próximo. Antes, ao contrário, partilha com ele das mesmas fraquezas. O certo é que na vida existem muito dedos apontados e poucos ombros para colher nossas lágrimas. Individualismo? Reflexo da sociedade? Fim dos tempos? Não! Existem várias subterfúgios para imputarmos nossos tropeços, mas pouca coragem para assumir que andamos e andamos sem rumo. Queremos distância das relações porque tememos o contato. Devemos passar por esta vida inabaláveis, fortes como a rocha. Qualquer simples sinal de fraqueza poderá ser usado contra a minha pessoa. Esquecemos que os melhores amigos são os que confrontam. Hoje em dia, poucos querem ser questionados.

Subi no mais alto monte para sentir o cheiro de vida e voltei com o espírito cheio de paz. Corri pelos vales e senti a liberdade do vento convidando meu corpo a bailar por suas correntes. Desatei as amarras que prendiam minha visão e vi o mundo que deveríamos viver e não vivemos e foi neste momento que caí em mim e vi você ao meu lado, porque não existe vida sem amigos, não existe possibilidade de existência sem que tudo que temos ao nosso dispor seja compartilhado.

Amigos são presentes de Deus que, aos poucos, adotamos como irmãos. A identificação é tão notória que até nossos traços se confundem. Uma fusão inesperada, mas que revela a absorção do outro por completo em nosso viver. Então, a alma cataliza esta mutação e o sangue que corre nas veias se torna obsoleto, porque pra ser irmão, não é necessário sangue, é necessário coração.

O outro lado – PARTE B

Já me acostumei a passar tempos em que a sequidão de abraços foi a tônica de minha vida, e não reclamava da falta deles, sabia que em algum momento eles voltariam, das formas mais simples e surpreendentes possíveis. Não sentia falta da presença, ao contrário, convivi o máximo com a ausência para saber de forma real que ela é um viver em nós. Talvez, o objetivo maior do homem, objeto de estudo e análise psicanalítica, não é conviver em sociedade, mas sim, conviver consigo mesmo.

Há uma guerra travada em nossos corpos, a incontrolável e substancial presença do outro, e a vaga existência de nós mesmos. A inconstância de nossos atos é notória, até a nós mesmos… Invariavelmente, passamos a nos achar insuportáveis, mas não existe vida com o outro, sem estarmos em paz com nossas almas. As vontades que temos sempre suplantam a nossa carência, e a vida passa a ser mais uma busca insensata pelas conquistas do que um caminho de descobertas. Deixamos coisas para trás, esquecemos pessoas, esquecemos conceitos, perdemos em amor e ganhamos em soberba…

A razão da reclusão não é a falta, nem um purgatório. Para além disto, ela se impõe como a preparação mais dolorosa para a convivência em sociedade. Às vezes, nos sentimos como páginas em branco, carentes e tão vazias de vida e encanto, mas esquecemos de observar, que mesmo na branquidão daquela folha, ali serão depositados sentimentos e até mesmo uma vida, esquecemos da necessidade daquele espaço vago… A ausência deve ser um constante viver em nós, ela delineará nossos passos falsos, contragolpeará com volúpia a saudade, e nos erguerá rumo a realização de nossos sonhos.

Só a ausência será capaz de nos preparar para os próximos estágios da vida. Porque é na ausência, como diz François La Rochefoucauld, que as pequenas paixões são apagadas, enquanto as grandes são fortalecidas. Porque o amigo ama em todo o tempo; e para a angústia nasce o irmão.

“Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade.” – Eclesiastes 4:9-12

Por Josias Pereira

 

Lindo né? O Josi é um grande amigo meu, nossa amizade nasceu de caronas para casa depois da aula. Ele também é jornalista e escritor de contos e divagações sobre a vida no seu tempo livre .  Escreveu esse texto exclusivamente para o Leve & Solta . Muito obrigada por sua participação e a sua amizade sempre. 

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